A igreja, a transgressão da castidade, e a mula-sem-cabeça - José Alberto Vasconcellos

Publicado em: 11/03/2019 às 07h06

Assessoria

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José Alberto Vasconcellos

“Pessoas consagradas, escolhidas por Deus para guiar almas no caminho da salvação, deixaram-se dominar por sua fraqueza ou enfermidade humana e assim se tornaram instrumentos de Satã.”(Papa Francisco, apud Veja, ed.06.03.2019, pág.30).

                   A imprensa, nos últimos tempos, tem abordado com freqüência notícias, dando conta do envolvimento de religiosos com o sexo, onde aflora a pedofilia como uma das principais causas e nelas, envolvidas até altas personagens da Igreja;  também no mundo profano, como é o caso de João de Deus, espírita instalado na cidade de Abadiânia, em Goiás; e ainda  pastores e pregadores de vários credos evangélicos.

                   Constata-se, repetindo o que disse o papa Francisco, que “...êles deixaram-se dominar por sua fraqueza ou enfermidade...”; ou ainda, ad argumentandum tantum, agiram conscientemente, motu próprio,  para saciar a libido, desafiando os mandamentos contidos no Direito Canônico, que disciplina o sacerdócio, e estabelece o celibato: a condição de solteiro.

                   Mas temos que considerar também, as circunstâncias em que as mulheres acercam-se dos religiosos e neste caso, surge a figura da “Mula-sem-cabeça”, lenda que diz: “a mulher que se envolver sexualmente com um padre, vira “Mula-sem-cabeça” !

                   Para melhor ilustrar essa lenda, temos em mãos “O Livro dos Fantasmas”, de Viriato Padilha, Ed. Spiker, Rio de Janeiro, 1956, que aborda o assunto com rebuscados detalhes, verbis: “No mundo estranho e singularmente fantástico de que nos estamos ocupando,a Mula-sem-cabeça tem lugar proeminente, e não há quem o ignore, por menos versado que seja em matéria de crendices populares.”

                   Prossegue Viriato Padilha, op.cit.: “A Mula-sem-cabeça, assim como a Bruxa e o Lobisomem, não é uma verdadeira Alma do Outro Mundo ou Espírito Sobrenatural, e sim uma criatura humana, dotada das mesmas qualidades das outras, porém que, por determinadas circunstâncias,adquiriu propriedades fantásticas e atributos que não se encontram no resto da humanidade.”

                   “A crença da Mula-sem-cabeça foi importada de Portugal é geralmente a mulher que mantém relações amorosas com qualquer padre, o qual, pelo juramento de castidade que faz, ao receber ordens, chama sobre aquela que com ele co-habita a maldição divina, pois o caráter de Mula-sem-cabeça é o de um fadário, isto é a degradação momentânea e periódica do ser humano em vil animal.”

                   Como informa o livro, a lenda da “Mula-sem-cabeça” veio de Portugal; e também foi em Portugal que nasceu Eça de Queirós (1845-1900), autor do livro “O crime do Padre Amaro”, onde descreve as tentações do Padre Amaro, seu envolvimento com uma beata, a qual abandona em Leiria, transferindo-se para Lisboa. O livro não faz nenhuma referência, se a beata  abandonada, teria transformado-se em “Mula-sem-cabeça”. Daí a dúvida: a lenda registra uma verdade ou apenas existe para assombrar as mulheres, que se acercam dos Padres com desejos...

                   Contudo, é bom as mulheres prevenirem-se, cautela e caldo de galinha, nunca fizeram mal a ninguém; e o autor do livro, Viriato Padilha, afiança que a Mula-sem-cabeça, de alguma forma, tem afinidade com as Bruxas e com os Lobisomens, vai daí... que talvez o Saci Pererê também faz parte da “família”!

  Existe mais uma entidade sinistra e muitos são os relatos de suas vítimas, a “Pisadeira, uma mulher grandalhona de vestido comprido e pés chatos que vem pisar na boca do estômago de quem dorme de costas, desaparecendo depois que o galo canta...” (Dic.Br.Melh.1970). Entidade que ataca a vítima durante o sono e, impiedosamente, a massacra, não permitindo que respire ou acorde, abandonando-a somente de madrugada,  depois que o galo cantar.  

                    Como testemunha da existência da “Pisadeira”, convoco a dona Luiza que trabalhou em minha casa como doméstica,  que por mais de uma vez, contou o sofrimento que teve nas garras da  “Pisadeira”, espírito que ela qualificou como sinistro,  traiçoeiro e maldoso.

                   A propósito do assunto abordado, relacionado com padres, lembrei-me de um amigo que tive lá pelo ano de 1958, quando ainda morava no estado de S.Paulo, o Nelsão! Inúmeras vezes ele contou-me a estória do Padre Labareda e suas peripécias, que, infelizmente, não posso revelar aqui, sob pena de ver desmoronar o Império dos “Contos Mal Contados.”

                   O tempo passa, as lendas são lembradas e o que nos revelam  é um enigma. O que existe de verdade nelas? Melhor mesmo é prevenir-se.

05.03.2019 (4550) Membro da Academia Douradense de Letras.

(josealbertovasco@yahoo.com.br)